A Ferramenta de LCA Importa? O Estudo Que Encontrou Diferenças de Até 100x Entre SimaPro e GaBi
Estudo publicado no Journal of Cleaner Production comparou SimaPro e GaBi com bases de dados idênticas. Em algumas categorias de impacto, a razão entre resultados chegou a 101,5 — suficiente para inverter uma decisão.
A Ferramenta de LCA Importa? O Estudo Que Encontrou Diferenças de Até 100x Entre SimaPro e GaBi
Resumo: Se dois softwares de Análise de Ciclo de Vida partem exatamente da mesma base de dados de processos unitários, seria razoável esperar resultados equivalentes. Dois pesquisadores dinamarqueses testaram essa premissa sistematicamente — e o que encontraram tem implicações diretas para qualquer empresa que baseie decisões de investimento em resultados de LCA.
O experimento
Ivan T. Herrmann (Universidade Técnica da Dinamarca) e Andreas Moltesen (Agência Dinamarquesa de Energia) publicaram em 2015, no Journal of Cleaner Production, uma comparação direta entre os dois softwares líderes de LCA no mundo: SimaPro (PRé Consultants, Holanda, lançado em 1990) e GaBi (PE INTERNATIONAL, Alemanha, lançado em 1992).
O desenho experimental foi rigoroso justamente para eliminar variáveis. Os pesquisadores garantiram que as versões utilizadas fossem as mais recentes disponíveis no início do estudo e que as bases de dados de processos unitários fossem idênticas — ambas usando EcoInvent versão 2.01, confirmado diretamente com o suporte técnico da EcoInvent. Nenhuma atualização de software foi aplicada durante o estudo, para evitar contaminação dos resultados.
Foram selecionados aleatoriamente 100 processos unitários com nomes correspondentes em ambos os softwares. Para cada processo, aproximadamente 250 fluxos elementares foram comparados — resultando em cerca de 25.000 pontos de dados.
A métrica foi simples: a razão entre o valor de saída do SimaPro (S) e o do GaBi (G). Quanto mais essa razão se afasta de 1, maior a divergência. Fluxos com diferença abaixo da razão 1,01 foram considerados idênticos.
O que foi encontrado no nível de inventário
A boa notícia primeiro: de todos os fluxos analisados nos 100 processos, apenas seis apresentaram razão superior a 1,01. Na esmagadora maioria dos casos, os dois softwares concordam.
A má notícia está na magnitude desses seis casos:
- "Sulfato para o ar" — razão máxima observada de aproximadamente 109
- "Tório 230 para o ar" — diferenças de ordens de magnitude
- "Nióbio 95 para o ar" — diferenças de ordens de magnitude
- "Partículas > 10 µm para o ar", "Tório 232 para o ar", "Zircônio 95 para o ar" — diferenças modestas
Os pesquisadores investigaram se a explicação seria sobreposição entre compartimentos de emissão — ou seja, o mesmo fluxo sendo alocado a "ar" em um software e a "água" em outro. Para o Nióbio 95, essa explicação se sustenta. Para o sulfato e o Tório 230, não: os valores agregados em todos os compartimentos também divergiam. A origem dessas diferenças não pôde ser identificada.
A relevância prática varia por substância. Tório 232 e Zircônio 95 não contribuem para nenhuma categoria de impacto nas metodologias incluídas — divergências ali são inócuas. Mas Tório 230 contribui para radiação ionizante e saúde humana, e o sulfato contribui para saúde humana e qualidade de ecossistemas segundo o Eco-indicator 99. Essas divergências, sim, se propagam.
Onde o problema se agrava: a avaliação de impacto
O inventário foi a parte com melhor desempenho. A etapa de avaliação de impacto (LCIA) revelou divergências substancialmente maiores.
Os pesquisadores selecionaram aleatoriamente o processo Soja em Fazenda Brasileira (SBF), com fluxo de referência de 1 kg de soja, e compararam três metodologias: EDIP 2003, CML 2001 e Eco-indicator 99.
EDIP 2003 — a divergência de 101,5
Na categoria formação de ozônio fotoquímico (exposição humana), a razão entre os resultados caracterizados foi de 101,5 — e de 91,59 após ponderação.
A causa foi rastreada com precisão. Comparando os fatores de caracterização (CFs) substância por substância, os pesquisadores encontraram uma razão consistente de aproximadamente 1.000 entre SimaPro e GaBi. Para 1,2,3-trimetilbenzeno: 1,71E-01 no SimaPro contra 1,70E-04 no GaBi. Para 1-penteno: 1,53E-01 contra 1,50E-04.
A interpretação é direta e desconfortável: os valores de CF da literatura original, expressos em pessoa.ppm.h por grama, foram inseridos no GaBi como se fossem por quilograma — um erro de conversão de unidade de três ordens de magnitude. (Para o 1-propanol, a razão de 469 não tem explicação evidente.)
Na categoria aquecimento global, a razão foi de 2,40. A causa: tratamento diferente das emissões de CO₂ provenientes de transformação de uso do solo — o fator de caracterização é 1 no GaBi e 0 no SimaPro.
Eco-indicator 99
As diferenças foram mais modestas, mas ainda significativas:
- Mudança climática: razão de 4,62 — novamente pela ausência de CF no SimaPro para "dióxido de carbono, transformação do solo"
- Radiação: razão de 0,145 — decorrente da divergência de inventário no Tório 230
- Uso do solo: razão de 3,24 — o GaBi separa "uso do solo" (2,39 PDF.m².ano) de "conversão do solo" (5,06 PDF.m²), enquanto o SimaPro apresenta um único valor de 7,74 PDF.m².ano, próximo à soma dos dois
CML 2001
Divergências concentradas em ecotoxicidade. Em ecotoxicidade aquática marinha, razão de 0,18 — porque o CF para emissões de fluoreto de hidrogênio ao ar é 300 vezes maior no GaBi. Em ecotoxicidade terrestre, razão de 0,01 — porque o SimaPro só atribui CF ao cromo quando especificado como "cromo VI" ou "cromo, íon"; emissões registradas apenas como "cromo" não são caracterizadas. O GaBi atribui CF a todos os tipos.
O achado mais sutil: agregação pode esconder o erro
Aqui está o resultado que merece atenção particular de quem lê relatórios de LCA sem examinar as categorias individuais.
Quando os pesquisadores somaram todas as categorias ponderadas do SBF em um único escore agregado pelo EDIP 2003, a razão entre SimaPro e GaBi foi de 0,98 — praticamente idêntica.
Isso apesar de uma categoria individual apresentar razão de 91,6.
A explicação: a categoria com maior divergência tinha peso relativamente pequeno no total, e foi diluída pelas demais. O escore final parecia perfeitamente consistente entre os dois softwares — enquanto continha um erro de quase duas ordens de magnitude em um de seus componentes.
Um número agregado que concorda entre ferramentas não é evidência de que os componentes concordam.
Duas consequências documentadas em estudos reais
Os autores aplicaram as razões encontradas a dois estudos de LCA publicados, para ilustrar o impacto decisório.
Biodiesel (Herrmann et al., 2012) — um estudo com SimaPro e EDIP 2003 modelou um caminho de diesel petroquímico e oito de biodiesel. O caminho base de biodiesel resultou em 57 kg CO₂-eq por 1.000 km. Aplicando a razão encontrada para o GaBi, esse número cairia para 23,8 kg CO₂-eq/1.000 km. Simultaneamente, o impacto de eutrofização aquática aumentaria por um fator de 6,3.
Um tomador de decisão com preferência por mitigação climática e outro com preferência por qualidade da água poderiam chegar a conclusões opostas — a partir dos mesmos dados de inventário, mudando apenas o software.
Óleo de palma na Malásia (Yusoff e Hansen, 2007) — o sistema otimizado apresentou impacto de uso do solo de 0,26 Pt com SimaPro. Com GaBi, aplicando a razão de 3,24, seria 0,08 Pt. Os autores observam que isso poderia potencialmente ter levado à autorização de uma produção significativamente maior de óleo de palma.
O que isso significa para uma empresa que contrata LCA
Três implicações práticas emergem do estudo.
Primeira: a incerteza real pode exceder a incerteza reportada. Os autores são explícitos — a incerteza nos resultados de LCA pode ser maior do que uma simulação de Monte Carlo revelará, porque Monte Carlo não consegue contabilizar dados incorretos.
Segunda: a amostra investigada foi pequena, e mesmo assim encontrou muito. Os ~25.000 pontos de dados representam menos de 1% da população total estimada (~2,8 milhões de pontos, considerando ~4.000 processos no EcoInvent com média de ~700 fluxos cada). Nesse recorte inferior a 1%, foram encontradas quase 500 diferenças.
Terceira: a responsabilidade não é do praticante. Os autores recomendam explicitamente que, havendo suporte decisório falho, a responsabilidade recaia sobre os fornecedores de software e não sobre o consultor — usuários comuns e mesmo experientes não têm como detectar esses erros. Eles próprios declaram não se considerar usuários especialistas dos dois softwares.
A recomendação central dos autores é a implementação de ring tests padronizados entre os fornecedores de software — o mesmo mecanismo de validação cruzada usado entre laboratórios de análise química — e validação das bases de dados por terceira parte independente.
A pergunta certa a fazer ao seu consultor
O estudo não invalida a LCA como metodologia. Invalida a leitura de resultados de LCA como números absolutos e autoevidentes.
Para uma empresa que encomenda um estudo de ciclo de vida, isso se traduz em perguntas específicas: qual software e qual versão foram usados? Qual metodologia de avaliação de impacto? Os resultados foram examinados por categoria de impacto ou apenas no escore agregado? A decisão em questão depende criticamente de uma única categoria — e essa categoria está entre as que apresentam divergência conhecida?
Um estudo de LCA cujos resultados invertem conforme a ferramenta escolhida não é uma base sólida para alocação de capital. Um estudo cujas premissas, versões e categorias sensíveis estão documentadas e examinadas, sim.
Perguntas frequentes
SimaPro e GaBi produzem os mesmos resultados? Na maioria dos casos, sim. Dos ~25.000 pontos de dados comparados em 100 processos unitários com bases de dados idênticas (EcoInvent 2.01), apenas seis fluxos elementares apresentaram divergência acima da razão 1,01. Mas onde há divergência, ela pode ser de ordens de magnitude.
Qual foi a maior diferença encontrada entre os dois softwares? Na categoria formação de ozônio fotoquímico (exposição humana) pelo método EDIP 2003, a razão entre os resultados foi de 101,5 na caracterização e 91,59 após ponderação. A causa: fatores de caracterização inseridos com erro de conversão de unidade de três ordens de magnitude.
Um escore agregado consistente significa que os componentes concordam? Não. No estudo, o escore total ponderado do processo de soja apresentou razão de 0,98 entre os dois softwares — praticamente idêntico — apesar de uma categoria individual divergir por fator de 91,6. A categoria divergente tinha peso pequeno e foi diluída pelas demais.
A simulação de Monte Carlo resolve esse problema? Não. Os autores são explícitos: a incerteza nos resultados de LCA pode ser maior do que uma simulação de Monte Carlo revelará, porque Monte Carlo não contabiliza dados incorretos, apenas variação estatística.
De quem é a responsabilidade por decisões baseadas em resultados divergentes? Os autores recomendam que recaia sobre os fornecedores de software, não sobre o consultor — usuários comuns e mesmo experientes não têm como detectar esses erros. Eles próprios declaram não se considerar usuários especialistas.
O que perguntar ao contratar um estudo de LCA? Qual software e versão foram usados, qual metodologia de avaliação de impacto, se os resultados foram examinados por categoria ou apenas no escore agregado, e se a decisão depende criticamente de alguma categoria com divergência conhecida.
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Fonte: Herrmann, I.T. & Moltesen, A. (2015). "Does it matter which Life Cycle Assessment (LCA) tool you choose? – a comparative assessment of SimaPro and GaBi." Journal of Cleaner Production, Vol. 86, pp. 163-169. ISSN 0959-6526. Estudos citados no artigo: Herrmann et al. (2012), Int. J. Life Cycle Assess. 18(2); Yusoff, S. & Hansen, B.H. (2007), Int. J. Life Cycle Assess. 12(1).
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