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A Insuficiência da Ecoeficiência: Por Que Melhorar 0,9% ao Ano Não Chega Nem Perto

A economia global melhorou a ecoeficiência de GEE em 0,9% ao ano entre 2000 e 2013. Para o cenário RCP2.6 do IPCC, precisaria de 6,2% — um fator 7. Bjørn e colegas propõem indicadores de sustentabilidade absoluta.

A Insuficiência da Ecoeficiência: Por Que Melhorar 0,9% ao Ano Não Chega Nem Perto

Resumo: Existe uma contradição aparente que qualquer profissional de sustentabilidade já observou: o desempenho ambiental de produtos individuais melhora continuamente, e mesmo assim a humanidade se afasta de um estado de sustentabilidade ambiental. Cinco pesquisadores publicaram na Environmental Science & Technology a explicação — e uma proposta para resolvê-la.


O padrão que a ACV consolidou

A Avaliação de Ciclo de Vida é cada vez mais usada pela indústria para comunicar melhorias de desempenho ambiental de forma cientificamente defensável. O formato é conhecido: comparar o novo design de produto com o modelo do ano anterior, ou com uma referência de mercado, demonstrando que a ecoeficiência do portfólio está melhorando gradualmente — ou que a empresa está à frente dos concorrentes.

Em ambos os casos, o sinal enviado aos stakeholders é o mesmo: a empresa está fazendo a sua parte.

Anders Bjørn, Miriam Diamond, Mikołaj Owsianiak, Benoît Verzat e Michael Zwicky Hauschild identificam por que esse sinal pode ser enganoso: melhorias em ecoeficiência são insuficientes para compensar níveis crescentes de consumo.


O fator 7

O número que os autores usam para dimensionar o problema vem de um cálculo da PricewaterhouseCoopers.

Entre 2000 e 2013, a melhoria global de ecoeficiência em emissões de gases de efeito estufa foi de 0,9% ao ano.

Para que os volumes de emissão fiquem alinhados ao cenário RCP2.6 do IPCC, essa taxa precisaria subir para 6,2% ao ano — e permanecer nesse nível até 2100.

Ou seja: a taxa de descarbonização da economia global precisa aumentar por um fator de 7 para evitar que o aumento de temperatura global ultrapasse 2 °C.

Um fator de sete não é uma diferença de calibragem. É uma diferença de natureza. E é exatamente a distância que uma métrica relativa não consegue mostrar, porque uma melhoria de 0,9% ao ano parece — e é — progresso genuíno quando comparada ao ano anterior.

Os autores formulam a pergunta que decorre disso: como garantir que a ACV não seja usada para legitimar uma situação de business as usual de melhorias de ecoeficiência incrementais e insuficientes?


A proposta: capacidade de carga como referência

A solução que propõem é conceitualmente simples e metodologicamente exigente: os indicadores de ACV precisam de capacidade de carga como referência, para comparar os impactos ambientais de um sistema de produto contra níveis sustentáveis de impacto.

Capacidades de carga derivam de limiares inerentes à resposta da natureza — por exemplo, a concentrações crescentes de poluentes ou ao uso de recursos. Permanecer abaixo desses limiares é uma pré-condição para a sustentabilidade ambiental, porque salvaguarda os serviços ecossistêmicos e os níveis de biodiversidade necessários a sistemas socioecológicos resilientes.

Com essa referência, os indicadores de ACV podem se tornar Indicadores Absolutos de Sustentabilidade Ambiental (AESI). São absolutos precisamente porque as capacidades de carga independem do sistema de produto avaliado — diferentemente de qualquer benchmark competitivo ou ano-base, que muda conforme o objeto de comparação.

O trabalho anterior de Bjørn e Hauschild (2015) desenvolveu referências de capacidade de carga para a etapa de normalização da ACV, permitindo traduzir a pontuação de um indicador midpoint na capacidade de carga ocupada correspondente, expressa em equivalentes-pessoa. Isso torna possível quantificar a fração da capacidade de carga pessoal consumida, por exemplo, por alimentação ou transporte.


Por que isso supera a pegada ecológica

Os autores reconhecem a semelhança com a análise de pegada ecológica, onde a área disponível é comparada com a área necessária para suprir recursos e assimilar emissões.

Mas apontam uma vantagem clara da ACV combinada com normalização baseada em capacidade de carga: cobre um espectro muito mais amplo de interferências ambientais, apoiada no forte desenvolvimento metodológico da avaliação de impacto de ciclo de vida e vinculada a bases de dados abrangentes de inventário de processos unitários.

Pegada ecológica converte tudo em hectares. AESI preserva as dezesseis ou mais categorias de impacto — e, com isso, preserva a visibilidade dos trade-offs.


O problema que a ciência não resolve: quem tem direito a quanto

Aqui está a parte mais honesta do artigo, e a mais desconfortável.

Um produto só pode ser considerado sustentável se não exceder a capacidade de carga à qual tem direito. E esses direitos são, nas palavras dos autores, inevitavelmente normativos — dada a diversidade de perspectivas sobre o que constitui necessidades (e desejos) na vida.

O exemplo que usam é preciso: água engarrafada.

Em um país desenvolvido com acesso confiável a água potável de torneira, alguns considerariam que a água engarrafada tem direito a capacidade de carga próxima de zero — e seria consequentemente avaliada como insustentável.

Em um país em desenvolvimento, a avaliação poderia ser diferente, dada a falta comum de água potável confiável, segura e publicamente acessível.

O mesmo produto, a mesma pegada física, dois julgamentos opostos — e ambos defensáveis. A natureza normativa do direito à capacidade de carga representa um desafio quando combinada com a abordagem científica da ACV.

Os autores permanecem otimistas quanto à possibilidade de consenso. Assim como a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU é amplamente aceita, acreditam ser possível acordar uma regra de que a capacidade de carga seja compartilhada igualmente entre as pessoas, de modo que todas possam potencialmente atender suas necessidades.

Apontam ainda que cenários setoriais de redução de GEE do IPCC, da IEA e de estratégias climáticas nacionais e municipais podem servir como referências de política para alocar capacidade de carga entre produtos de diferentes setores e regiões geográficas.


O caso Eneco: o que acontece quando uma empresa faz a conta

O artigo cita a distribuidora de energia holandesa Eneco, que aplicou o modelo "One Planet Thinking" — baseado em vincular indicadores de ACV ao conceito de fronteiras planetárias.

Os resultados preliminares indicaram que a Eneco precisaria melhorar sua ecoeficiência de 2014 (impactos por kWh de eletricidade produzida):

  • Fator 1,5 em depleção de recursos fósseis
  • Fator 13 em mudança climática

para ser considerada ambientalmente sustentável.

Um fator 1,5 é um programa de melhoria contínua. Um fator 13 é uma reformulação do modelo de negócio. A mesma empresa, no mesmo ano, com duas ordens de esforço completamente distintas dependendo da categoria — informação que nenhuma métrica agregada revelaria.


A objeção que os autores antecipam

O artigo não finge que a adoção será fácil. Os autores afirmam explicitamente que não esperam que todas as empresas achem atraente adotar AESI na comunicação com stakeholders, considerando o conflito evidente entre o dogma do crescimento econômico contínuo e a necessidade de permanecer dentro de uma capacidade de carga finita.

Mas seguem com o argumento decisivo: desenvolver um conjunto abrangente de AESI deixará as empresas relutantes com uma desculpa a menos para evitar encarar os desafios reais de sustentabilidade.

O contexto que apontavam já em 2015 se confirmou: a ONU estava desenvolvendo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, e em 2012 o WBCSD — representando 200 grandes empresas com receita anual combinada de 7 trilhões de dólares — anunciou trabalho conjunto com pesquisadores de fronteiras planetárias para aproximar negócios e ciência.


Perguntas frequentes

O que é ecoeficiência e por que ela não basta? É a melhoria do desempenho ambiental por unidade de produto ou serviço, medida contra uma referência anterior ou de mercado. Não basta porque melhorias de ecoeficiência são insuficientes para compensar níveis crescentes de consumo: o desempenho unitário melhora enquanto o impacto total aumenta.

Qual a taxa de descarbonização necessária segundo o artigo? A melhoria global de ecoeficiência em GEE foi de 0,9% ao ano entre 2000 e 2013. Para alinhar com o cenário RCP2.6 do IPCC seria necessário 6,2% ao ano até 2100 — um aumento por fator 7.

O que são Indicadores Absolutos de Sustentabilidade Ambiental (AESI)? Indicadores de ACV que usam a capacidade de carga do planeta como referência, em vez de um produto ou ano de comparação. São absolutos porque as capacidades de carga independem do sistema de produto avaliado.

Qual a vantagem sobre a pegada ecológica? A ACV com normalização por capacidade de carga cobre um espectro muito mais amplo de interferências ambientais, apoiada no desenvolvimento metodológico da avaliação de impacto e em bases de dados abrangentes de processos unitários — preservando a visibilidade de múltiplas categorias em vez de agregar tudo em uma métrica única.

O mesmo produto pode ser sustentável em um país e insustentável em outro? Sim, segundo os autores. Água engarrafada em um país com acesso confiável a água potável de torneira teria direito a capacidade de carga próxima de zero; em um contexto sem água potável segura e acessível, a avaliação seria diferente.

Existe algum caso empresarial de aplicação? Sim. A distribuidora holandesa Eneco aplicou o modelo One Planet Thinking e encontrou que precisaria melhorar sua ecoeficiência de 2014 por fator 1,5 em depleção fóssil e fator 13 em mudança climática para ser considerada ambientalmente sustentável.

Como se decide quanto de capacidade de carga cabe a cada produto? Não há resposta científica. Os autores reconhecem que os direitos são normativos, mas propõem partilha igualitária entre pessoas como regra viável, e apontam cenários setoriais do IPCC, da IEA e de estratégias climáticas nacionais como possíveis referências de política.


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Fonte: Bjørn, A., Diamond, M., Owsianiak, M., Verzat, B. & Hauschild, M.Z. (2015). "Strengthening the Link between Life Cycle Assessment and Indicators for Absolute Sustainability To Support Development within Planetary Boundaries." Environmental Science & Technology, 49(11), 6370–6371. DOI: 10.1021/acs.est.5b02106. ISSN 1520-5851. American Chemical Society. Referências internas: Steffen et al. (2015), Science; PricewaterhouseCoopers LLP (2014), Low Carbon Economy Index; Bjørn & Hauschild (2015), Int. J. Life Cycle Assess.; Borucke et al. (2013), Ecological Indicators; One Planet Thinking model (Eneco case).


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